Com que frequência quem tem diabetes precisa examinar o fundo de olho?

Rastreamento da retinopatia diabética: por calendário, nunca por sintoma

Resposta curta: quem tem diabetes tipo 2 deve fazer o exame já no momento do diagnóstico. No tipo 1, o primeiro exame costuma ser cinco anos após o diagnóstico. A partir daí, ao menos uma vez por ano, e mais vezes se já houver retinopatia.

Por que não dá para esperar os sintomas

A retinopatia diabética é silenciosa justamente na fase em que o tratamento funciona melhor. O paciente enxerga bem, dirige, lê, trabalha — e a retina já apresenta microaneurismas, hemorragias e áreas sem circulação.

Quando o sintoma aparece, em geral já existe edema macular ou hemorragia vítrea. O tratamento nessa altura é mais longo, mais caro e recupera menos.

Esse é o motivo de o rastreamento ser por calendário e não por queixa.

O que muda a frequência

  • Sem retinopatia: exame anual
  • Retinopatia leve a moderada: intervalos mais curtos, definidos caso a caso
  • Retinopatia grave ou edema macular: acompanhamento próximo, às vezes mensal durante o tratamento
  • Gravidez: avaliação no primeiro trimestre e seguimento ao longo da gestação, porque a retinopatia pode progredir rápido nesse período

Diabetes gestacional, que surge só na gravidez, tem conduta diferente do diabetes prévio à gestação.

O exame dói? Preciso de preparo?

Não dói. É necessário dilatar a pupila com colírio, o que leva cerca de vinte minutos e embaça a visão de perto por algumas horas. Convém ir acompanhado ou não dirigir na volta.

Quando existe suspeita de edema macular, acrescento a tomografia de coerência óptica (OCT), que mede a espessura da mácula sem contato com o olho e sem contraste.

O controle sistêmico conta mais do que qualquer tratamento ocular

Hemoglobina glicada, pressão arterial e perfil lipídico controlados reduzem a velocidade de progressão da retinopatia. Nenhuma injeção intravítrea compensa uma glicemia descontrolada por anos.

Trabalho junto com o endocrinologista pelo mesmo motivo: a retina é onde a doença sistêmica fica visível, mas o tratamento de fundo não está no olho.

O que costumo ver no consultório

Pacientes que fazem o exame religiosamente todo ano quase nunca chegam a mim com hemorragia vítrea. Os quadros graves que atendo vêm, quase sempre, de alguém que passou cinco, oito, dez anos sem examinar o fundo de olho porque enxergava bem.

Enxergar bem é exatamente o que a retinopatia permite até tarde demais.

Dr. Celso Morita — Médico oftalmologista. CRM-SP 97.362 | RQE 58221. Graduação e residência médica em Oftalmologia pela Universidade de São Paulo (USP), com formação complementar em Retina e Vítreo na mesma instituição. Atende em Vila Mariana, São Paulo.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem do exame de cada paciente.